terça-feira, 2 de março de 2010

Sobre todas as coisas casuais, o que fica

“Caso aconteça, puxe a cordinha e será ejetado da Terra por um breve ciclo solar. Aproveite a falta de programações culturais no espaço para refletir sobre o acontecido”. Acho que ainda não inventaram nenhuma bugiganga do gênero, nem mesmo os japoneses que adoram se distrair com esses feitos tecnológicos para compensar a falta de liberdade sexual.

Chamariam de...Sistema de Prevenção à Casualidade que Aparentemente Veio Para Ficar. Ou então contratariam um profissional de marketing para resumir a idéia em um super nome impactante em inglês, como Destiny puncher.

Realmente não sei por que ainda não criaram tal aparato, já que esse tipo de casualidade é o que gera alguns dos principais problemas existenciais da humanidade, principalmente nos dias de hoje, em que as pessoas não podem se dar ao luxo de perder o controle da conta, do volante ou da rotina.

E acho que já aconteceu com todo mundo, esse tipo específico de casualidade. E acho que se acontecesse com todo mundo ao mesmo tempo, o mundo pararia completamente por uns três minutos, enquanto homens e mulheres, patrões e empregados, corintianos e palmeirenses, olhariam para o nada com aquele ar abobalhado por simplesmente não entender como aquela conversa, apresentação ou esbarro casual desembocou nesse estado catatônico e com trilha sonora de fundo.

Porque se todas as pessoas notassem, ao mesmo tempo, que encontraram alguém que as faz querer fugir desse epicentro de loucura que é a vida contemporânea...

notassem que seriam capazes de chegar atrasados no trabalho em plena segunda, terça ou mesmo quarta-feira, por ter ficado acordado conversando banalidades, essencialidades ou até crítica cinematográfica (gênero do discurso humano que prefiro não encaixar em nenhuma alegoria, com medo de represálias)...

notassem que há algo naquele encontro casual, naquela pessoa daquele encontro casual, que faz a mera casualidade querer se assanhar para o lado do dia-a-dia, dos pensamentos que insistem em ir e voltar depois mais fortes.

Com tantas coisas nesse mundo, tanta informação e gente e olhares e palavras e pesares que são descartados diariamente, aquelas casualidades que não se vão, assustam, é fato. Mas nem sempre é fardo, o que talvez seja até pior.

E caso isso aconteça, puxe a cordinha. Antes de não ter mais forças para tirar os braços enlaçados da vida daquela pessoa.

P.S: Porque cansei de ser apenas exposto pelas Letras, sem um pouco de contra exposição reacionária e inspirada.

2 comentários:

Claudiana disse...

"Com tantas coisas nesse mundo, tanta informação e gente e olhares e palavras e pesares que são descartados diariamente, aquelas casualidades que não se vão, assustam, é fato. Mas nem sempre é fardo".
Mas não acho que seja pior, pois o melhor é não ter mesmo tempo pra achar e ir-se encontrando e não dormindo enquanto há.
Quanto ao que fica, é somente quando finda e é melhor não pensar.
E ir de fato adormecendo os braços e adiando os sonhos dormidos, jamais os já despertos, para que não se tornem doridos e, pior que tudo, arrependidos...

Claudiana disse...

"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento" (Clarice Lispector)